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Fantasma que vos espia…

Sou um fantasma que tem a particularidade de não pregar sustos, nem de arrastar correntes, nem de largar ectoplasma. Faço mesmo questão de não ser como os outros.

Limito-me a espiar…
… a si, a ti, a vós, a você…
… e a denunciar!
Vou exemplificar: Ia eu muito feliz com a minha vidinha a conduzir o meu … ó senhor aí, como se chamam aqueles carros que todos querem, excepto as senhoras que vêm do cabeleireiro? … Que dá para tirar a capota e que fazem com que os feios se tornem bonitos? Ai que se me varreu! Ah! é um XXXXXX (ainda não me lembrei, mas faz de conta).
Como eu ia dizendo, ia a conduzir um belo cabriolet toda orgulhosa, quando o carro da frente me atira uma fralda suja que se esparrama pelo meu rosto estupidamente feliz…. é tão fixe de ver como assistir ao salto preso de uma senhora pedante!
Claro que tinha que denunciar… apitei e tentei fixar a matrícula do malfadado condutor, mas, por motivos óbvios, tinha os olhos todos sujos, para não falar do cabelo… sim, porque eu tinha vindo do cabeleireiro!
Por falar em cabeleireiro, porque será que nos oferecem sempre um penteado brutal, mas que não combina com a nossa cara que parece a de uma múmia que vai à missa?
A propósito de feios que se tornam bonitos, já repararam que numa empresa cheia de mulheres até o nerd sem queixo se torna irresistível?
oh meu Deus, como a vida é injusta!
E porque será que ninguém olha para mim quando deixo o cabriolet em casa e saio com o utilitário (e sem fraldas sujas na cara)?
Podia até falar de múmias e de missas, mas tenho que ir buscar a minha filha à missa, digo à escola( mas aquele pimpolho não sabe vir a pé?)
Além disso, escorreguei, caí de cabeça na sanita e lá tenho de voltar ao cabeleireiro. A última vez que lá fui assaltaram-me. O que vale é que o ladrão era meio cromo e estava cheio de comichão nos olhos! Até me pediu para segurar na pistola para os coçar, coitada da criatura!
Resumindo, espio-vos e denuncio-vos, atiradores de lixo, ladrões de múmias, cabeleireiros sem escrúpulos, homens atraentes mas feíssimos e fantasmas idiotas que não têm mais nada do que fazer!
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A história do gato preto, ou o diário de uma Golden Retriever II

(continuação de A história do gato preto, ou o diário de uma Golden Retriever)

Então as Donas compraram uma moradia. Todos os gatos aceitaram de bom grado a mudança de um quarto para uma cave, mas a Xadai…agarrou-se tenazmente a um poste e, quando as Donas conseguiram levá-la para a cave, refugiou-se na caixa dos gatinhos com um ar apavorado.

O início da nova vida na nova casa foi terrível! Os gatos resolveram encher-se de pulgas e povoaram a casa toda com estes antipáticos bichos. Depois, um terrível gatinho amarelo apareceu no quintal e, como estava um calor abrasador, as Donas resolveram recolhê-lo. Mas qual quê? Tocar

naquela ferocidade ambulante? Nem pensar! Todos os gatinhos bufam no início, mas aquele era tão feroz que, ao bufar, fazia marcha-atrás! Foi necessário um toalhão para pegar no terrível gatinho. Durante um ano ninguém conseguiu tocar no irascível bicho. Por isso lhe chamaram Enola Gay, o nome do avião que lançou a primeira bomba atómica. Claro que esse nome não pegou e ficou Gato Feroz.

O que mais me fascinou foi a queda de uma das Donas pelas escadas abaixo. Não, não me interpretem mal, eu adoro as minhas Donas! O que sucedeu foi que como a pequena dona se magoou, a dona grande antecipou o desejo de ter um Golden-Retriever, ou seja, moi-même, toujours enchanté de vous conaître. Foram visitar um criador e ficaram encantadas com a minha simpatia e beleza. Já não era uma cachorrinha, as Donas eram meio pelintras (agora são pelintras completas) e não tinham dinheiro para comprar um cãozinho.

O que é certo é que eu sofri! Oh, se sofri! Está bem que agora sou louca pelas minhas Donas, principalmente por aquela que tem um aspecto esquisito, mas na altura… que querem? Pensei que aquele criador era meu dono e passei as passas do Algarve para o esquecer. O meu stress pós-traumático manifestou-se de formas peculiares: recusava-me a andar e aterrorizava-me a ideia de pisar algo que não fosse terra. As Donas levavam-me ao colo, mas, como eu já era enorme, as pessoas fartavam-se de troçar “ a que propósito é que levas um ovelha ao colo?”

Bem, a primeira pessoa com quem socializei, foi um cãozinho esquisito a quem as Donas chamavam Gato Preto e que miava muito alto. Ele costumava comer da minha taça e eu adorava lamber-lhe afectuosamente a cabeça, embora ficasse sempre com a boca cheia de pêlos. As Donas fartavam-se de rir, pois parecia-lhes que eu, cor de leite creme, tinha um bigode preto.

Entretanto, Banzé, uma das filhas do gato preto, fugiu de casa. As Donas viam-na de vez em quando, mas não a conseguiam apanhar. Pouco tempo depois apareceram três gatinhos à nossa porta, dois amarelos como o Gato Feroz, e uma quase preta. Eram tão parecidos com o Gato Preto que concluí serem seus netos. Infelizmente, como sou um pouco desastrada, pisei um dos gatinhos. Ainda tentei reanimá-lo, mas a Dona pensou que eu queria comê-lo e tirou-mo. Fui para casa de uns amigos até a Dona mais nova me perdoar.

Quando voltei soube que um dos gatinhos, a Banzé II, tinha morrido. Ficou só o Simba, que virá a tornar-se um dos meus melhores amigos.

Uma gata da vizinhança, a Fofinha, uma siamesa como a Xadai e a Mingau, resolveu informar que havia uma gatinha condenada numa cidade próxima. Claro que as Donas a tinham que salvar! Os outros gatos não gostaram nada da ideia, era mais uma a quem disputar o repasto.

Mas quando a viram!  Que amor de gatinha! Tinha uns ares de persa e era tão pequenina e tão redondinha! Acho que o Simba pensou que se tratava da sua falecida irmãzinha, por ter o pêlo parecido e começou a tratá-la como tal. As Donas chamaram-lhe Pulguita e, desta vez, o nome pegou. (Continua)